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Uma nova era para os trabalhadores da Sadia em Chapecó

O diretor do Senge-PR, Antonio Cezar Quevedo Goular, acompanhou o difícil processo eleitoral das eleições do Sitracarnes, que resultou numa vitória histórica para os trabalhadores da Sadia

3/9/2010


A direção do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carnes e Derivados de Chapecó (Sitracarnes) era controlada pela Força Sindical e pela própria Sadia. A empresa tem uma estratégia de guerrilha para controlar os sindicatos. Antes mesmo de se instalar em determinada localidade, antes até de existir a planta industrial, um grupo de pessoas ligadas a Sadia funda um sindicato. Quando começam as atividades da empresa, tudo já está sob controle, sem permitir que os trabalhadores se organizem.


Além da importância politica e econômica de Chapecó, o Sitracarnes sustentava muitas ações contra a classe trabalhadora e a suas organizações. Recentemente, apoiaram com força e violência a criação de um sindicato “pelego” na área de processamento de dados, abrangendo 135 municípios do oeste catarinense.


Para constituir a chapa de oposição houve enorme dificuldade, pois o nível de pressão dentro da fábrica era intenso. Foi um trabalho lento, de caráter conspirativo, com algumas desistências no percurso, mas ao final, todos juntos conseguiram dar conta do trabalho.


Para construir a vitória da chapa de oposição, foi necessário um longo e árduo trabalho de preparação, organização e articulação, em grande parte pela capacidade dos companheiros da Consulta Popular e do MST de Chapecó. Durante este tempo, foram articuladas outras forças do Estado e até fora dele. No dia da eleição, estiveram presentes representantes da Intersindical da região de Campinas e Limeira, o Conlutas de Passo Fundo, da Consulta Popular do PR, companheiros sindicalistas de Blumenau e Florianópolis, membros da CUT, o MAB de Erechim, companheiros do MST e da CP de Chapecó, CUT e muitos militantes de outras organizações locais.


A fabrica que possuí 6 mil trabalhadores conta com pouco mais de mil sindicalizados. A maioria com alto nível de insatisfação com sindicato, pois o nível de exploração dos trabalhadores por parte da empresa é enorme. Durante nossas pesquisas informais de boca-de-urna conversamos com diversas pessoas com doença ocupacional, estresse, depressão, fadiga nas articulações, entre outras, ocasionadas pelo trabalho brutal que são submetidos.


O processo eleitoral do sindicato, há de se reconhecer, se deu em parte, graças a um "peitudo" promotor da Justiça do Trabalho, que sustentou de maneira firme, mesmo recebendo ameaças de morte, todo o processo eleitoral. A lista dos trabalhadores aptos a votar foi outra enorme batalha. A chapa da situação apresentou uma lista com aproximadamente 400 nomes e a de oposição apresentou uma lista com 950 nomes. Depois de muita discussão, chegou-se a uma lista de consenso, com 750 nomes.


As vésperas da eleição, o ambiente na frente da fábrica era tenso, com os dois "exércitos" se preparando para guerra. De um lado homens enormes, sisudos, monoliticamente de laranja se perfilavam junto a escada da passarela que atravessava a avenida e dava acesso a fábrica. Do outro lado, uma massa colorida (não havia camiseta branca, "oficial", para mais da metade do povo), animada, com a presença de muitas mulheres, disputando a simpatia de cada trabalhador que entrava ou saía da fábrica. Era nítida a simpatia dos trabalhadores pela chapa de oposição, numa proporção aproximada de seis para um. Infelizmente, a grande maioria dos trabalhadores não é associados. Por isso, temíamos pela compra de votos, fraude nas urnas e tantos outros "esquemas".


Chegado o grande dia, 1º de setembro, sob a recomendação reiterada diversas vezes, de não aceitar provocações e evitar confusão de todas a maneiras, fomos para a entrada do sindicato, um dos locais de votação (aposentados e afastados) com tudo correndo tranquilamente. Fomos para a entrada fábrica e fizemos informalmente nova boca de urna, que confirmava a vitória da oposição.


Após a eleição, que aconteceu das 8 às 19 horas, nos dirigimos ao sindicato para acompanhar a votação. Após alguma confusão, a comissão eleitoral trouxe as duas urnas da fábrica, com direito a acompanhamento de viaturas policiais com sirene "aberta" e tudo mais.


Neste momento, com a presença da imprensa, começou a chegar muita gente, principalmente para o lado em que estávamos. Foi uma imagem interessante, dois contingentes de pessoas, separados por aproximadamente 70 metros, com fitas de sinalização, no meio a polícia militar, com grande efetivo (cavalaria, viaturas, cachorros), um verdadeiro cenário de batalha.


Por volta das 21h30min, começou uma chuva fina e o pessoal da chapa de situação começa a se desmobilizar. Nós continuamos firmes até às 23h, quando foi confirmado o resultado final: 489 para a chapa de oposição contra 216 da situação. Uma vitória inimaginável para muitos.


O desafio de fato vem agora. Os trabalhadores vitoriosos são combativos, mas sem experiência administrativa sindical. Por isso, vão precisar de muito apoio, dos movimentos sociais e de todo o movimento sindical organizado.


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