A truculência que marca um governo

Senge Paraná
30.MAIO.2016

O chamado massacre do Centro Cívico, ocorrido em 29 de abril de 2015, quando forças policiais avançaram contra servidores públicos desarmados, parece não ter servido de lição ao governo do Paraná.

Leia a seguir relato do diretor do Senge-PR, em Foz do Iguaçu, sobre novo episódio de uso desproporcional de força policial em nosso Estado. O ocorrido foi neste mês de maio, em Santa Terezinha de Itaipu.

Relatos de minha ida ao Acampamento Sebastião Camargo do MST

Por Pablo Braga Machado*

 

Chegamos por volta da uma hora da madrugada daquela quarta-feira fria em Santa Terezinha de Itaipu. Éramos um grupo pequeno, porém bastante representativo com lideranças sindicais, estudantis, e advogados. Faziam ainda parte de nossa equipe o Coletivo Mídia Livre, responsável pela cobertura de tudo. Na entrada da Fazenda cerca de 40 companheiros faziam vigília para que não entrasse ninguém que não fosse autorizado pelo movimento.

Na noite anterior uma intensa movimentação de policiais foi sentida nas ruas e hotéis de Foz do Iguaçu. A informação que chegou era que haveria assim que o sol surgisse uma reintegração de posse, apesar do acordo feito semanas atrás de que haveria 90 dias para negociação. Contatos feitos com membros do governo estadual passavam a impressão de que aquela não era uma ação pensada e planejada por aqui apenas, fazia parte de uma orientação maior, direta do governo golpista de Michel Temer.

Apesar do estado de vigília permanente fomos muito bem recebidos pelas lideranças do movimento que nos saudaram com um delicioso churrasco. Naquele momento pude perceber o quanto aquela gente sofrida e lutadora tinha disposição para resistir. Conversei com vários integrantes do movimento, uns mais antigos outros menos. Ouvi suas histórias de vida e de luta. Alguns já haviam passado por situações semelhantes. Outros não.

Pensei em descansar um pouco, afinal deveria estar com toda energia para as primeiras horas de sol, mas logo desisti. Preferi ficar ali conversando. Embora o momento devesse ser de grande tensão pelo que estava por vir, contraditoriamente estávamos desfrutando de horas agradáveis em companhia de pessoas humildes e gentis. Junto com alguns companheiros do Coletivo Mídia Livre, resolvemos andar pelo acampamento Sebastião Camargo realizar um registro daqueles momentos.

Fomos até a entrada da Fazenda Santa Maria, onde alguns companheiros faziam guarda. Em volta de uma fogueira, alguns contavam histórias. A maioria engraçadas. Outras de fantasmas. E outras, engraçadas e de fantasmas. Uma moça brincava que o fantasma da fazenda estava apaixonado por uma senhora. Havia ainda uma bonita placa esculpida numa madeira estampando as letras: “MST”. Chegaram outros carros e pudemos assistir de outro ângulo a chegada de alguém na fazenda.

Saímos dali e fomos observar as belezas da fazenda, várias fotografias lindas. As horas foram passando e às 4h00 em ponto ouvimos uma sirene. Ficamos preocupados, não havia ninguém do movimento conosco. Na sequência fogos de artifício, imaginamos que a Polícia Militar deveria ter se antecipado. Não era. Apenas o momento de todos acordarem e se preparar para aquele dia. Por volta das 5h00 estavam praticamente todos prontos.

Desci acompanhar novamente a entrada. Quando estava tomando um chimarrão, ouvimos um grito que dizia que alguns bois tinham se soltado e estavam descendo em nossa direção. Uma tensão que logo se aliviou quando foi constatado que o alarme era falso. Alguns que já estavam com bastante sono imediatamente acordaram. Pouco tempo depois, começaram a descer os primeiros carros. Estavam a caminho da BR-277.

Os líderes do movimento haviam avaliado que era mais prudente aguardar a chegada da Polícia Militar nas proximidades da rodovia, tendo em vista que desta forma se daria uma visibilidade maior aos fatos evitando ficar encurralados no interior da propriedade evitando um confronto violento. Outra medida tomada foi escalar uma Comissão de Negociação para auxiliar no processo de conversa com o comando da Polícia Militar com o mesmo objetivo, de evitar confronto.

Fui um dos escalados para esta tarefa. A primeira conversa, com a Polícia Rodoviária Federal, transcorreu com certa tranquilidade. Passaram-nos a preocupação com a segurança das pessoas pois tratava-se de uma rodovia de trânsito rápido. Solicitamos a eles que intermediassem uma conversa com o comando da PM. Algum tempo depois nos falaram que o comando da PM se dirigiria a nós para a conversa.

Nossa reivindicação era de que a conversa ocorresse antes da chegada do comboio fortemente armado e equipado. Queríamos que houvesse uma conversa com o comando da PM no sentido de planejar pacificamente como se daria a resolução daquela situação, os prazos, condições de transporte e locais para que aas famílias pudessem ser alojadas. Eram famílias que ali estavam e assim naturalmente muitas crianças.

Surgiram os primeiros raios de sol e com eles a Tropa de Choque com suas bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Antes de qualquer negociação pacífica, chegaram de maneira abrupta e violenta. Tão abrupta que me encaminhava junto aos demais membros da Comissão de Negociação para falar com o comando da PM e fomos surpreendidos por tamanha brutalidade. No meio dessa confusão toda, acabamos separados dos demais membros da comissão.

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Ficamos, eu e dois outros companheiros impedidos de retornar para o lado do movimento. Não nos deixavam passar. Assistimos então de perto, o sadismo no olhar de alguns policiais. Vimos também o despreparo de alguns agrupamentos confusos para colocar suas máscaras. Nossos olhos ardiam, a quantidade de bombas de gás lacrimogêneo que foram arremessadas para o lado do movimento foi excessiva. Percebemos isso quando os próprios policiais se surpreenderam.

Ouvíamos os tiros das balas de borrachas e ficamos muito aflitos de maneira que não conseguíamos enxergar, devido à excessiva quantidade de fumaça das bombas, para saber se ao menos as crianças estavam protegidas. A truculência da polícia era assustadora. Não paravam de chegar viaturas, ônibus, uma operação grandiosa. Meu companheiro chegou a comentar que aquela desproporção toda lembrava muito a violência com que Israel trata o povo palestino.

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Os meios de comunicação convencionais começavam a chegar e ficavam ali também impedidos de passar. Não puderam retratar as cenas de maior truculência e brutalidade. Queríamos estar do outro lado, a preocupação aumentava na mesma proporção das bombas e balas. De qualquer forma percebemos que poderia ter um lado positivo em estar daquele lado: Denunciar através de entrevistas ao vivo o outro lado da história que até aquele momento só tinha um narrador.

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As denúncias provavelmente foram muito importantes para impedir o pior. Um dos advogados, que havia vindo de Cascavel, se encarregou desta tarefa e foi ouvido por praticamente todos os jornalistas que ali se faziam presentes. Conseguimos o primeiro contato com o outro lado e fomos informados de que aquela ali era apenas uma parte das tropas, muitos outros policiais entraram pelo outro lado da propriedade. Era ali desenhada a mais pura atuação do aparelho repressor do estado burguês.

Por sorte, encontramos alguns moradores vizinhos da fazenda que queriam ir para casa e nos convidaram para atravessar um extenso milharal. Como o companheiro advogado já havia dado todas as entrevistas necessárias, resolvemos atravessar. Podia ser perigoso, mas era necessário. Não podíamos ficar aguardando até a hora que a Polícia Militar resolvesse liberar nossa passagem. Precisávamos nos juntar aos demais companheiros e auxiliar no que fosse preciso.

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Atravessamos o milharal e encontramos nosso carro. Como uma mão lava a outra, deixamos o casal de vizinhos muito simpáticos em sua residência e nos dirigimos rumo à Fazenda Santa Maria. Fomos parados no caminho, dissemos que éramos da Comissão de Negociação, pediram para que aguardássemos o comboio com vários caminhões e máquinas retroescavadeiras prontas a derrubar os barracos. Seguimos viagem logo atrás do comboio.

Na entrada da fazenda, mais uma barreira policial. Fizemos contato com os demais membros da comissão que já estavam negociando com os coronéis da PM. Aguardamos um pouco e conseguimos entrar. Pediram nossos documentos e tiraram fotos. Naquele momento, estavam organizando um cadastro com as famílias. Víamos no rosto das pessoas um olhar de tristeza, mas tínhamos certeza de que sabiam que aquela era apenas uma batalha e que a luta não acabava ali.

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Acompanhamos a retirada dos documentos do movimento. O coronel ao perceber que nossa equipe estava filmando até se fez de bonzinho, dizendo que se interessava em aprender mais sobre o movimento e perguntou se podiam dar um livro para ele. Um drone da Polícia Científica sobrevoava o acampamento fazendo imagens que foram depois gentilmente cedidas para a Rede Globo. Filmava as famílias desmontando seus barracos com pressa já que o prazo era curto.

Aguardamos a chegada da outra equipe que nos substituiria. Ao contrário dos policiais, que tinham uma grande estrutura de alimentação montada, estávamos com fome. No final, tenho certeza de que vivenciar a experiência real é bem mais forte do que as mais aprofundadas leituras. Não que essas leituras não sejam fundamentais, mas a vivência prática complementa a teoria de maneira valiosa. Nunca esquecerei esses momentos. Dão-nos mais energia e disposição para a luta revolucionária.

*Pablo Braga Machado é engenheiro civil, diretor financeiro regional do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR) e presidente do PCdoB em Foz do Iguaçu.

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