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Engenheira Agrônoma paranaense receberá o “Nobel da Agricultura”

Por Mariana Figueiredo

“Eu queria ajudar de alguma maneira a ter menos fome no mundo” – É assim que a pesquisadora em agronomia relata o que a motivou a estudar as ciências da terra. Ela afirma, que sempre quis ser microbiologista, desde criança e que ver as pessoas passando fome era algo que a deixava triste, o que a fez procurar pela área de produção de alimentos.  

Mariangela Hungria narrou ao longo de mais de uma hora, como foi a sua trajetória para chegar até aqui: a primeira brasileira a ganhar o prêmio World Food Prize Foundation, em reconhecimento aos seus 40 anos de pesquisa com biológicos. A pesquisadora falou sobre o preconceito por ser mulher no meio da agronomia, por exemplo, quando ela foi para a faculdade e não havia alojamentos femininos, apenas masculino. E complementou ainda, que teve que enfrentar mais um preconceito no meio profissional. 

“Já havia um monte de preconceito por ser mulher no meio da agronomia e eu ainda optei por trabalhar com biológicos ao invés de químicos, e todo mundo dizia para eu mudar a minha área de estudo para fertilizantes químicos, mas eu não desisti e segui com a ideia de trabalhar com biológicos”.  

E com essa persistência em trabalhar com biológicos, que a engenheira agrônoma da Embrapa e professora da Universidade Estadual de Londrina há quase 25 anos, iniciou uma pesquisa de substituição parcial ou total dos fertilizantes químicos pelos biológicos. Ela optou por produzir biológicos, que são bactérias que fazem o processo de fertilização biológica da planta e realizou um experimento que pudesse ser aplicado não apenas para o pequeno produtor rural, mas também para o topo da cadeia produtiva.  

“Eu falei para mim mesma: vou trabalhar e trabalhar, ao ponto de chegar para o agricultor e dizer ‘usando isso aqui, você vai produzir igual ou mais do que se usar o adubo químico’. E a minha ideia era que se funcionasse para grandes produtores, também iria vai funcionar para o produtor pequeno – então, eu resolveria o problema dos dois ao mesmo tempo”. 

Atualmente, o Brasil é líder mundial no uso desses biológicos na agricultura. Para se ter uma ideia, este é um dos motivos do aumento da produção de soja nas últimas décadas, a produção quadruplicou nos últimos 40 anos, passando de 26 milhões de toneladas para 120 milhões de toneladas.  

Mariangela relata que apesar dos feitos inéditos através da pesquisa, que ainda enfrenta muitas dificuldades, trabalha com uma equipe pequena. São cinco pessoa no laboratório e apenas ela e mais outro colega como pesquisadores. Ela afirma também que, a Embrapa fornece parte da estrutura de pesquisa e que o CNPq fornece a maior parte dos insumos do laboratório. 

A pesquisadora ressalta que nunca foi tão difícil trabalhar com pesquisa no Brasil. Apesar de sempre ter enfrentado dificuldades, relata que agora está mais difícil do que nunca, e que o principal motivo é a inconstância dos recursos para a pesquisa.  

“É muito difícil pesquisar no Brasil, porque você está fazendo uma coisa e para. Eu não julgo a “fuga de cérebros” do Brasil, porque o pesquisador aqui não tem condições de desenvolver a sua pesquisa adequadamente. Eu sempre digo, o que a gente faz no Brasil não é pesquisa, é milagre!”, afirma.  

Ela ainda relata que já trabalhou em outros países onde o investimento é muito maior e que o pesquisador lá é mais valorizado. Mariangela afirma que só conseguiu executar a sua pesquisa ao longo desses 40 anos, porque inscreveu inúmeros projetos para angariar recursos para a sua pesquisa ao longo do tempo, e que o CNPq, também investiu na compra de enriquecimentos, insumos e o financiamento dos próprios bolsistas de pesquisa – pois, ela é professora e ama ensinar, então sempre contou com o engajamento dos seus alunos.   

“Eu sempre gostei de ensinar e acho assim que se a gente não ensinar, você não tem legado, eu já orientei mais de 200 alunos em suas pesquisas. Por isso, eu falo que no dia que eu subir para receber o prêmio que será no dia 23 de outubro, não sobe apenas a Mariangela, sobe a Mariangela e todas as pessoas que trabalharam comigo ao longo desses 40 anos e todos os alunos que estiveram comigo nesta pesquisa”, afirma a professora emocionada.