
Confira o capítulo anterior da série de reportagens: https://www.senge-pr.org.br/2026/02/03/privatizacoes-do-setor-eletrico-o-historico-da-privatizacao-da-ceee/
Quando se fala em energia no Paraná, falar da Copel é falar de identidade. Criada em 1954 para unificar a eletrificação no estado, a companhia se tornou, ao longo de décadas, um símbolo de desenvolvimento regional. Não por acaso, cada tentativa de privatização ou de redução do controle estatal sempre provocou resistências, manifestações e disputas políticas. O capítulo mais recente dessa história — a privatização de 2023 — foi anunciado como modernização inevitável, mas deixou marcas profundas no debate sobre o papel do Estado e os limites da entrega de empresas estratégicas ao mercado.
A proposta do governo Ratinho Jr.
Em 2022, a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou o projeto de lei enviado pelo governador Ratinho Jr. (PSD) que autorizava a transformação da Copel em uma “corporation”. O termo sofisticado escondia a essência da operação: a perda do controle estatal sobre a maior companhia elétrica do estado, responsável por atender mais de 4,5 milhões de unidades consumidoras em quase 400 municípios.
O governo defendia que a mudança era necessária para atrair novos investimentos, fortalecer a competitividade e assegurar a renovação de concessões de geração, especialmente a da usina hidrelétrica Foz do Areia, responsável por cerca de 30% da capacidade da Copel. A oposição, por outro lado, denunciava que se tratava de uma privatização “disfarçada”, incoerente com a trajetória da empresa, que era a mais lucrativa do Paraná e uma das mais sólidas do setor elétrico nacional.
O debate extrapolou a esfera política: sindicatos de trabalhadores, entre eles o Senge-PR, e movimentos sociais organizaram protestos em Curitiba e em diversas cidades do interior. O movimento “A Copel é Nossa” sintetizou o sentimento de grande parte da população: a venda da companhia não seria modernização, mas sim a entrega de patrimônio público estratégico construído ao longo de gerações.
A engenharia financeira: R$ 5,2 bilhões e o fim do controle estatal
O processo de privatização foi concretizado em agosto de 2023, na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), por meio de uma oferta subsequente de ações (follow-on). A operação movimentou R$ 5,2 bilhões, incluindo a venda de um lote suplementar. Só ao Governo do Paraná couberam R$ 3,1 bilhões — valor aplicado em fundo de investimento de renda fixa administrado pelo Banco do Brasil.
Com a venda, o Estado reduziu sua participação para 15,65%. A única salvaguarda foi a chamada “golden share”, ação especial que garante poder de veto em decisões estratégicas, como mudanças de sede ou venda de ativos essenciais. Apesar disso, a essência da estatal se perdeu: a Copel deixou de ter controlador majoritário e passou a ser regida pela lógica de corporação privada, com foco primordial nos interesses dos acionistas.
A operação atraiu investidores de peso. A demanda superou R$ 10 bilhões, sinalizando grande interesse do mercado. A gestora norte-americana GQG adquiriu US$ 100 milhões em ações, e outras gigantes internacionais também marcaram presença, como Zimmer e 3G Capital. O leilão foi coordenado por bancos de renome, entre eles BTG Pactual, Itaú BBA e Morgan Stanley, consolidando a Copel como ativo de destaque no radar global.
A proporção do negócio: marcos internacionais
A privatização da Copel foi muito além das fronteiras do Paraná. A operação foi a 3ª maior oferta do setor elétrico do mundo em 2023, atrás apenas da BRF (R$ 5,3 bilhões) e da Rumo (R$ 6,4 bilhões em 2020). Cada ação foi negociada a R$ 8,25, com ágio de 5% sobre o preço de referência estabelecido no lançamento da oferta. No pregão seguinte, os papéis já estavam cotados a R$ 8,31.
A Copel se tornou a primeira estatal estadual do Brasil a ser privatizada via Bolsa de Valores, um marco que transformou o caso paranaense em um caso observado de forma nacional e internacional.
A falta de diálogo
Apesar da forte propaganda do governo do estado, especialistas apontavam os riscos e a privatização foi alvo de críticas contundentes. Deputados de oposição questionaram o caráter “apressado” do processo e apontaram incoerência: como justificar a venda de uma companhia altamente lucrativa e eficiente? Sindicatos de eletricitários e engenheiros alertaram que o impacto seria imediato sobre os trabalhadores, com programas de desligamento, terceirização e precarização dos serviços.
Em abril de 2023, ainda antes da venda, o Sindicato dos Engenheiros no Paraná (Senge-PR) já havia alertado em audiência pública na Assembleia Legislativa que a lógica da privatização deslocaria o foco da empresa: de garantir universalização e qualidade do serviço para maximizar índices de rentabilidade reconhecidos pela Aneel. Essa mudança, diziam, impactaria diretamente a experiência dos consumidores.
Movimentos sociais reforçavam que a Copel não era apenas uma companhia de energia, mas também gestora de ativos estratégicos como a Fundação Copel, responsável por planos de previdência e saúde de milhares de empregados e aposentados. A preocupação era que a privatização fragilizasse esse sistema de proteção, construído ao longo de décadas.
O pós-privatização da Copel: lucros em alta, serviços contestados e o impacto sobre trabalhadores e consumidores
A cerimônia de agosto de 2023, na Bolsa de Valores de São Paulo, marcou oficialmente a transformação da Copel em uma corporação sem acionista controlador. O governo do Paraná reduziu sua participação para 15,65%, mantendo apenas a “golden share”, ação especial com poder de veto em decisões estratégicas.
Passada a euforia inicial do mercado, 2024 se tornou o primeiro ano completo para avaliar os efeitos da privatização. E os resultados foram ambíguos: enquanto investidores comemoraram lucros recordes, consumidores e trabalhadores relataram deterioração da qualidade de vida e dos serviços. O paradoxo entre eficiência financeira e precarização social ficou evidente.
Lucros recordes e piora nos atendimentos
Em 2024, a Copel apresentou um crescimento expressivo: 20,3% a mais de lucro líquido em relação a 2023. Para a diretoria e para os novos acionistas, o salto foi prova de que a privatização havia atingido seu objetivo — fortalecer a empresa no mercado e garantir maior retorno aos investidores.
Ao mesmo tempo, um dos pontos mais notados pós-privatização foi a qualidade dos serviços prestados à população. Levantamento do Brasil de Fato mostrou que o tempo médio de atendimento subiu 34,4% entre setembro e dezembro de 2023 em comparação ao mesmo período de 2022.
O número de ocorrências emergenciais com interrupção de energia elétrica também aumentou. Para os consumidores, isso se traduziu em mais tempo sem energia e em maior demora nas respostas das equipes técnicas.
Enquanto o balanço financeiro brilhava, a experiência cotidiana era de frustração. Em muitas regiões do Paraná, multiplicaram-se relatos de demora em consertos, sobrecarga nos call centers e dificuldades para falar com atendentes humanos. O contraste ficou evidente: eficiência para o investidor, ineficiência para o cidadão.
O impacto sobre os trabalhadores
A privatização também trouxe mudanças profundas para os empregados. Em 2024, a Copel anunciou um Plano de Demissão Voluntária (PDV), que prevê a saída de 1.438 dos 5.830 trabalhadores — quase 25% do quadro.
Sindicatos alertaram que a redução drástica comprometeria o atendimento, já que os desligados eram, em sua maioria, profissionais experientes. A substituição por terceirizados com treinamento limitado reproduziu um padrão visto em outras distribuidoras privatizadas, como a CEEE, e aumentou os riscos de acidentes de trabalho.
Para os que permaneceram, o cenário foi de sobrecarga, maior pressão por metas de produtividade e perda de direitos históricos de negociação coletiva. Muitos relatam queda na qualidade de vida, desgaste emocional e insegurança em relação ao futuro.
A percepção popular: promessas não cumpridas
Se para os investidores o pós-privatização é motivo de comemoração, para a sociedade paranaense a avaliação é mais crítica. Pesquisa Quaest, publicada em abril de 2024, mostrou que 47% dos paranaenses acreditam que os serviços da Copel permaneceram iguais após a privatização, enquanto uma parcela significativa afirmou que houve piora. Apenas uma minoria enxergou alguma melhora perceptível.
Esse dado reforça que a promessa de modernização não se refletiu de maneira clara na experiência cotidiana dos consumidores. Ao contrário, a percepção mais frequente foi a de que a empresa passou a priorizar dividendos, não qualidade.
O paradoxo da privatização: dividendos x serviço público
A trajetória da Copel no pós-privatização repete um padrão visto em outros estados: lucros crescentes para o mercado e sensação de retrocesso para a população.
O dilema está na lógica da regulação. Enquanto indicadores financeiros são recompensados com valorização de ações e reajustes tarifários reconhecidos pela Aneel, os investimentos estruturais que melhorariam os índices de continuidade (DEC e FEC) muitas vezes ficam em segundo plano.
O resultado é um paradoxo: a Copel nunca valeu tanto para os acionistas, mas também nunca foi tão criticada pelos próprios paranaenses.
Um futuro em aberto
O futuro da Copel privatizada depende de sua capacidade de equilibrar interesses de mercado e compromissos sociais. Até agora, o saldo mostra que, mais uma vez, a promessa de eficiência não se cumpriu em melhoria no serviço público essencial.
No final de 2026, com apoio do Senge-PR e de demais organizações da sociedade civil, foi lançada uma campanha popular que visa a reestatização da Copel através de um Projeto de Iniciativa Popular (PLIP) para recomprar ações e retomar o controle estadual, com coleta de assinaturas prevista até março de 2026. Seguimos acompanhando os desdobramentos e defendendo os trabalhadores e trabalhadoras da empresa!
Confira o próximo capítulo da série de reportagens em breve!
📌 Referências
• Brasil de Fato. Serviços da Copel pioraram após privatização.
• G1 Paraná. Governo do Paraná arrecada R$ 3,1 bilhões com privatização da Copel.
• Gazeta do Povo. Copel: qual é a avaliação dos paranaenses sobre a privatização.
• Brasil de Fato. A Privatização da Copel: O Preço de Colocar o Lucro Acima do Interesse Público.
• CNN Brasil. Privatização da Copel foi a 3ª maior oferta do setor elétrico do mundo em 2023.
• G1 Paraná. Governo do Paraná arrecada R$ 3,1 bilhões com privatização da Copel.
• Gazeta do Povo. Privatização da Copel capta R$ 5,2 bi e controle do Estado será reduzido.
• CNN Brasil. Privatização da Copel foi a 3ª maior oferta do setor elétrico do mundo em 2023.
• Gazeta do Povo. Copel: qual é a avaliação dos paranaenses sobre a privatização.
• Brasil de Fato. A Privatização da Copel: O Preço de Colocar o Lucro Acima do Interesse Público.
• Brasil de Fato. Serviços da Copel pioraram após privatização.