Por Guilherme Araki

Durante a CEO Conference do BTG Pactual, o senador e candidato à presidência da república, Flávio Bolsonaro (PL), afirmou que pretende privatizar 95% das empresas estatais caso seja eleito.
Em evento do mercado financeiro, Flávio disse ser favorável às privatizações e afirmou: “Não dá para ser tudo, mas vamos privatizar 95%”.
O que é privatizar?
Uma empresa pública, ou estatal, é toda aquela cujo controle acionário pertence em sua totalidade ou em sua maior parte ao Estado. Elas atuam, normalmente, em segmentos de interesse público, como os setores de energia, telecomunicações e infraestrutura.
Privatizar refere-se à prática na qual uma empresa ou instituição pública é vendida ao setor privado. Neste caso, o estado deixa de gerir a entidade, passando-a para a iniciativa privada.
Como empresas privadas, essas organizações passam a responder pela gestão e pelos serviços oferecidos, orientadas também pelos interesses de seus proprietários e acionistas. Embora continuem sujeitas à legislação e à fiscalização dos órgãos competentes, suas decisões passam a ser tomadas sob uma lógica de gestão privada, que pode priorizar a rentabilidade e o retorno financeiro.
Quais são os impactos da privatização?
A privatização de empresas que atuam em setores estratégicos pode gerar impactos que vão além da própria organização, afetando trabalhadores, consumidores e a sociedade como um todo. Entre os pontos que merecem atenção estão as tarifas cobradas pelos serviços, a qualidade do atendimento, os investimentos em infraestrutura, a manutenção dos empregos e as condições de trabalho.
O diretor-secretário e ex-presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR), Leandro Grassmann, alerta para o risco das privatizações na qualidade dos serviços oferecidos para a população e a falta de clareza nas declarações do candidato à presidência da república.
“Flávio Bolsonaro fala em privatizar 95% das estatais e já defendeu também a venda dos Correios. Sua equipe chegou a admitir a privatização do Banco do Brasil, depois negada por outro assessor. Essa falta de clareza é preocupante. Na Eletrobras, houve vários problemas no fornecimento de energia e milhares de desligamentos de profissionais; na Sabesp, a privatização trouxe piora da qualidade e não eliminou os reajustes. Como engenheiro, defendo que serviços essenciais sejam avaliados pela qualidade, pela segurança e pelo preço para a população, nunca pelo lucro”, afirma Leandro Grassmann.
O exemplo da Copel no Paraná
A Companhia Paranaense de Energia (Copel), responsável pela geração, transmissão e distribuição de energia elétrica no estado do Paraná, teve sua privatização concretizada em agosto de 2023, sob a promessa do governador Ratinho Júnior de melhoria nos serviços.
Um dos pontos mais notados pós-privatização foi a qualidade dos serviços prestados à população. Levantamento do Brasil de Fato mostrou que o tempo médio de atendimento subiu 34,4% entre setembro e dezembro de 2023, logo após a mudança, em comparação ao mesmo período de 2022.
O número de ocorrências emergenciais com interrupção de energia elétrica também aumentou. Para os consumidores, isso se traduziu em mais tempo sem energia e em maior demora nas respostas das equipes técnicas.
A Copel caiu no ranking da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sendo classificada como uma das piores concessionárias de energia do Brasil. No último levantamento divulgado, referente ao ano de 2024, a Companhia estava em 29° lugar no ranking com 31 empresas.
A privatização trouxe também mudanças profundas para os empregados. Em 2024, a Copel anunciou um Plano de Demissão Voluntária (PDV), prevendo a saída de 1.438 dos 5.830 trabalhadores – quase 25% do quadro.
Sindicatos alertaram que a redução drástica comprometeria o atendimento, já que os desligados eram, em sua maioria, profissionais experientes. A substituição por terceirizados com treinamento limitado reproduziu um padrão visto em outras distribuidoras privatizadas, e aumentou os riscos de acidentes de trabalho.
Para os trabalhadores que permaneceram, o cenário foi de sobrecarga, maior pressão por metas de produtividade e perda de direitos históricos de negociação coletiva.
Em 2026, o Paraná enfrentou uma crise no fornecimento de energia elétrica pela Copel, marcada por quedas frequentes, interrupções prolongadas e demora no restabelecimento do serviço, especialmente em áreas rurais. O problema provocou prejuízos à agricultura, à pecuária e à indústria, além de gerar reclamações de consumidores e cobranças por melhorias na distribuição.
A “Crise dos Apagões” foi discutida em audiências públicas promovidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná e pelo Senado Federal. A Câmara Municipal de Quatro Barras, município da região metropolitana de Curitiba, aprovou a abertura de uma CPI para investigar os apagões.
Em junho de 2026, a Copel enviou um pedido para a Aneel que autorizou o aumento na conta de luz para os paranaenses. O reajuste médio foi de 20%. Para os consumidores cativos de baixa tensão (pequenos comércios, iluminação pública, pequenas propriedades rurais, entre outros), 19,85%, e para os de alta tensão (grandes empresas, hospitais, shoppings, indústrias, etc), 21,87%.
Ao mesmo tempo em que enfrentava a crise dos apagões e aumentava a conta de luz para a população paranaense, a Copel registrou um lucro de R$ 645,1 milhões no segundo trimestre de 2026 (2T26), o que representou um aumento de 42,6% em relação ao mesmo período de 2025.
O que está em jogo para a população?
As experiências de privatização mostram que não basta avaliar uma empresa apenas por seus resultados financeiros. Energia elétrica, saneamento, telecomunicações e infraestrutura são serviços fundamentais para a vida cotidiana, a atividade econômica e a redução das desigualdades.
Para o Senge-PR, o debate sobre privatizações está diretamente relacionado também à valorização profissional, à qualidade dos serviços públicos e ao modelo de desenvolvimento que o país pretende construir.
Engenheiros, engenheiras e demais profissionais técnicos são fundamentais para planejar, operar, fiscalizar e manter sistemas de energia, saneamento, transporte e infraestrutura. A preservação de equipes qualificadas, de condições adequadas de trabalho e da autonomia técnica é essencial para garantir a segurança e a continuidade desses serviços.
A discussão, portanto, não se limita a quem é proprietário de uma empresa, mas envolve quem define suas prioridades, como os investimentos são realizados, quais interesses orientam as decisões e quem responde pelos impactos sobre a sociedade.
Ao acompanhar esse debate, o Senge-PR reafirma seu compromisso com a defesa da engenharia, dos trabalhadores e dos serviços essenciais. Decisões sobre o patrimônio público e setores estratégicos precisam ser discutidas com transparência, participação social e avaliação rigorosa de suas consequências para a população brasileira.