Por Mariana Figueiredo.
Em 2026, ganhou força no Brasil um movimento contrário ao voto feminino e favorável ao chamado “voto familiar” — a ideia de que cada família teria um único voto, geralmente definido pelo “homem da casa”. A proposta circula principalmente entre grupos em ambiente digital marcado pela difusão de discursos machistas e misóginos.
O debate ganhou repercussão após a divulgação, em junho de 2026, de um vídeo do influenciador Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, no qual afirmou que “mulher vota muito mal”. A declaração foi associada por ele ao comportamento eleitoral das mulheres, que segundo pesquisas de opinião, apresentam diferenças de posicionamento ideológico em relação aos homens.
Em outro episódio, a empresária Pietra Bertolazzi publicou um vídeo no qual se posicionou contra o voto feminino e criticou a distribuição gratuita de absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Uma conquista que levou décadas
O voto feminino foi reconhecido no Brasil em 1932, porém naquele momento da história, só podiam votar as mulheres casadas e com o aval do marido, ou ainda, as mulheres viúvas e solteiras com renda própria, o que limitava o número das mulheres votantes.
Em 1933, as mulheres puderam disputar as eleições pela primeira vez e em 1934 o voto feminino foi incorporado a Constituição. Finalmente, em 1965, o voto tornou-se obrigatório, sendo equiparado aos homens (dados Câmara dos Deputados).
A história mostra, portanto, que o direito das mulheres ao voto não foi concedido de uma única vez e não aconteceu sem resistência. Foi resultado de um processo de décadas de mobilização política e social.
O peso eleitoral das mulheres
Esse levante contra o voto feminino, o que pode parecer a versão brasileira do “O Conto da Aia”, nada mais é que uma estratégia política perversa da extrema direita para as eleições majoritárias de 2026.
Isso porque o Brasil atingiu o índice histórico de mais de 83 milhões de mulheres aptas a votar em 2026, isso significa 52,84% do eleitorado, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Traduzindo esses números e considerando a margem de erro de 2% é a primeira vez que as mulheres podem literalmente decidir uma eleição.
Esse número confere às mulheres um peso decisivo na composição do eleitorado brasileiro. Em uma disputa eleitoral acirrada, diferenças relativamente pequenas de preferência podem alterar o resultado — embora a influência efetiva do eleitorado feminino dependa de como esses votos serão distribuídos.
Por que desvalorizar o voto das mulheres?
O que mudou em 2026 é que o protagonismo eleitoral historicamente marcado por homens, agora é DELAS. E são ELAS as protagonistas no processo eleitoral. Enquanto elas eram coadjuvantes neste processo e não ofereciam riscos ou poder de decisão, o voto feminino não apresentava perigo. A partir do momento, que as mulheres se tornaram a maioria do eleitorado e com o poder de decisão eleitoral realmente expressivo, o voto feminino também se tornou uma ameaça.
Combinando esse argumento com os números de uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, divulgada em julho de 2026, na qual revelou que 44% das mulheres no Brasil se posicionam no espectro político ideológico a esquerda ou centro-esquerda, enquanto 37% das mulheres se posicionam entre a direita e a centro-direita. E quando analisaram o eleitorado masculino, o cenário se inverte com 50% do eleitorado se posicionando como direita ou centro-direita, com apenas 33% dos homens se posicionando a esquerda.
Políticas públicas e a realidade das mulheres
Demorou! Mas, as mulheres entenderam que as pautas progressistas vão de encontro as suas realidades e que elas são mais dependentes do aparato do Estado. Isso se explica, porque segundo o IBGE, no Brasil cerca de 11,6 milhões de famílias brasileiras são formadas por mães solos, em um país que o abandono paterno é naturalizado. Essa mulher vai precisar de creche, escola, vacinas fornecidas pelo SUS, etc. Logo, a sua sobrevivência dependerá diretamente da formatação de políticas públicas direcionadas para mulheres.
A exaustão em função do trabalho do cuidado não remunerado e a dedicação as tarefas domésticas, fazem por exemplo que majoritariamente sejam as mulheres as principais apoiadoras pelo fim da escala 6×1. E quando olhamos para os números alarmantes do feminicídio (1.571 vítimas em 2025), o eleitorado feminino entendeu que os diversos tipos de violências contra mulheres, não tem cor ou classe social, e que o voto pode ser um instrumento de transformação dessa realidade. A formulação de políticas mais eficazes na defesa da preservação e da qualidade de vida DELAS virou uma questão política.
A importância DELAS votarem NELAS
Diante deste cenário, houve uma mudança de percepção das mulheres o que diz respeito a importância da representatividade, ou seja, mulheres elegendo outras mulheres para os espaços de poder. Neste contexto, surgem iniciativas apartidárias em defesa do voto feminino em mulheres, como o Guia SenaDonas construído com informações detalhadas sobre as 70 mulheres que são candidatas ao Senado em 2026. Outra iniciativa é a organização Elas no Poder, que é uma organização sem fins lucrativos que atua em todo o Brasil com programas de educação política e capacitação eleitoral, preparando lideranças femininas para ampliar a representatividade nas instituições.
Para se ter uma ideia da discrepância de representatividade, no Senado das 81 cadeiras apenas 15 são ocupadas por mulheres, isso representa 18,5% da casa legislativa. Quando olhamos para a Câmara dos Deputados, das 594 vagas para deputados federais, apenas 107 foram preenchidas por mulheres – o que significa 18% das cadeiras. E nas eleições de 2026, apenas 34,85% dos candidatos são candidaturas femininas.
Diante desses dados nasce uma pergunta: Se somos 51,5% da população e 52,84% do eleitorado, por que não somos nem a metade do número quando o assunto é representatividade política? – Então, elas entenderam uma conta simples: ELAS precisam votar NELAS, para que a representatividade realmente seja efetiva. Em um cenário que o projeto de lei que criminaliza a Misoginia aguarda aprovação e votação no Senado, depois de muita resistência para ser aprovado na Câmara dos Deputados, essa representatividade torna-se cada vez mais urgente.
Os ataques ao voto feminino em 2026 aumentaram porque eles entenderam rapidamente, que nós não só podemos decidir, como podemos deixar de elegê-los e ainda, podemos ser candidatas e governar de forma mais efetiva do que eles. A verdade é que desqualificar e desincentivar o voto feminino e o voto em mulheres é uma estratégia política para se manterem no poder – mas, nessas eleições a escolha é DELAS. O jogo virou e elas estão aprendendo a jogar em favor delas.