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Programa Mais Engenharia evidencia a importância da capacidade técnica do Estado, do investimento em infraestrutura e da valorização profissional para enfrentar as desigualdades e fortalecer o desenvolvimento nacional
O desenvolvimento de um país não acontece espontaneamente. Exige planejamento, investimento público, políticas permanentes e profissionais qualificados para transformar as necessidades da população em soluções concretas. No Brasil, desafios históricos relacionados ao saneamento, à habitação, à mobilidade urbana, à energia e à infraestrutura rural demonstram a importância de fortalecer a engenharia como instrumento de desenvolvimento econômico e social.
Nesse contexto, o Programa Mais Engenharia representa uma oportunidade de ampliar o debate sobre o papel do Estado no planejamento e na execução de políticas públicas. A experiência desenvolvida no Paraná demonstra como a articulação entre instituições e municípios pode contribuir para estruturar projetos de infraestrutura.
Para o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR), discutir infraestrutura significa também debater o modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende construir, a capacidade do poder público de atender às necessidades da sociedade e a valorização dos profissionais responsáveis por planejar, executar e fiscalizar obras e serviços essenciais.
Engenharia pública para enfrentar as desigualdades
No Paraná e em todo o país, os municípios apresentam diferentes capacidades técnicas e financeiras para atender às demandas de suas populações. Muitas administrações enfrentam dificuldades para elaborar projetos, estruturar propostas e acessar recursos destinados a obras e melhorias. Essa realidade pode ampliar as desigualdades regionais, dificultando o atendimento de comunidades que mais precisam de investimentos públicos.
O Programa Mais Engenharia, desenvolvido no Paraná, busca contribuir para o enfrentamento desse problema. Lançada em 2025, a iniciativa reúne o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR), a Itaipu Binacional e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com o objetivo de fortalecer a capacidade técnica das administrações municipais.
O modelo prevê apoio de engenheiros civis recém-formados, estudantes e supervisores técnicos locais, além de formação acadêmica em Gestão Pública em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável. A iniciativa contempla municípios selecionados e auxilia na elaboração de projetos voltados a demandas como pavimentação, saneamento, infraestrutura urbana e equipamentos públicos.
Para o mercado de trabalho, o programa atua sobre um ponto crítico: a experiência inicial. Para os municípios, amplia capacidade de estruturar projetos e buscar recursos. Para a formação, expõe jovens profissionais e estudantes a demandas reais de engenharia pública, planejamento e BIM.
Em outubro de 2026, dados divulgados pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) apontavam que o programa havia alcançado 50 municípios, com 317 projetos, impactando 38 empreendimentos com recursos aprovados (cerca de R$ 85 milhões) e 63 em captação (expectativa de aproximadamente R$ 70 milhões).
Uma política nacional para ampliar a presença da engenharia
A necessidade de fortalecer a engenharia pública também integra a agenda nacional da Fisenge. Na Carta da Engenharia Nacional aos candidatos ao Executivo e Legislativo de 2026, a federação defendeu a implementação de um Programa Mais Engenharia em âmbito nacional.
Inspirada no modelo do Programa Mais Médicos, a proposta prevê a contratação de profissionais da engenharia para ampliar a assistência técnica e a infraestrutura em regiões com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tanto no campo quanto nas cidades. O documento apresenta salário inicial proposto de R$ 14.058 para os profissionais contratados.
A proposta nacional não se confunde com o programa executado no Paraná: trata-se de uma política defendida pela federação, com estrutura própria e alcance pretendido em âmbito nacional. Ambas, entretanto, colocam em evidência uma questão central para o desenvolvimento brasileiro: a necessidade de ampliar a presença de profissionais qualificados onde as demandas sociais e de infraestrutura são maiores.
Fortalecer a capacidade técnica do Estado é fundamental para que o planejamento público não dependa exclusivamente de soluções emergenciais ou de contratações pontuais. Políticas estruturantes exigem equipes permanentes, conhecimento acumulado e condições para que os investimentos sejam definidos a partir das necessidades da população.
Investimento público, soberania e desenvolvimento nacional
Infraestrutura não é apenas uma questão de obras. É uma condição para garantir direitos, movimentar a economia e reduzir desigualdades. Redes de energia, saneamento, transporte, habitação e equipamentos públicos influenciam diretamente a vida cotidiana, a atividade produtiva e as oportunidades disponíveis para a população.
Por isso, decisões sobre setores estratégicos precisam considerar o interesse público, a segurança, a qualidade dos serviços e a capacidade de planejamento de longo prazo. O debate sobre o papel do Estado não pode se limitar à redução de custos ou aos resultados financeiros de curto prazo. É necessário avaliar como os investimentos contribuem para o desenvolvimento regional, a geração de empregos, a autonomia tecnológica e a melhoria das condições de vida.
A engenharia nacional tem papel estratégico nesse processo. Profissionais qualificados são indispensáveis para desenvolver soluções tecnológicas, planejar sistemas de infraestrutura, fiscalizar contratos, prevenir falhas e garantir a continuidade dos serviços. A preservação dessa capacidade técnica também contribui para a soberania nacional, ao fortalecer o conhecimento produzido no país e reduzir dependências em áreas essenciais.
Nesse sentido, fortalecer a engenharia pública não significa apenas ampliar o quadro de profissionais: significa criar condições para que o Estado planeje, execute e fiscalize políticas públicas com autonomia, responsabilidade e compromisso social.
Valorizar os profissionais é investir na sociedade
Não existe política consistente de desenvolvimento sem valorização de quem a torna possível. Engenheiros, engenheiras, agrônomos, agrônomas e profissionais das geociências precisam de remuneração adequada, condições dignas de trabalho, reconhecimento da responsabilidade técnica e oportunidades de formação e desenvolvimento profissional.
A precarização das relações de trabalho, a redução de equipes qualificadas e a desvalorização das carreiras técnicas comprometem não apenas os profissionais, mas também a capacidade de planejamento e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Defender a valorização profissional, portanto, é também defender o interesse público. Municípios e órgãos públicos precisam contar com equipes preparadas para identificar problemas, desenvolver projetos, acompanhar investimentos e garantir que as soluções adotadas atendam às necessidades coletivas.
Para o Senge-PR, o debate sobre infraestrutura deve estar associado à defesa dos serviços essenciais, ao fortalecimento da engenharia e à construção de um projeto nacional comprometido com a soberania, a redução das desigualdades e a melhoria das condições de vida da população.
O Programa Mais Engenharia, em suas diferentes propostas, contribui para colocar essas questões em evidência. O desafio é transformar iniciativas e reivindicações em políticas públicas permanentes, com recursos, planejamento, transparência e participação social.
O Brasil precisa decidir que projeto de desenvolvimento quer construir. Fortalecer a engenharia, valorizar seus profissionais e investir em infraestrutura são passos fundamentais para que o interesse público esteja no centro das decisões e o desenvolvimento alcance toda a sociedade.